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Por que devemos imaginar o futuro?

Prever cenários futuristas com exatidão é algo incomum, mas imaginá-los pode ser benéfico para a sociedade. 

Você já chorou por algum acontecimento do passado? Eu me arrisco a dizer que sim.

E por algum acontecimento do futuro? Também me arrisco a dizer que sim. 

Mesmo sem saber se aquilo realmente aconteceria, você provavelmente já imaginou o quanto um cenário futuro poderia ser bom ou ruim, e ao analisar as possibilidades acabou se emocionando, seja através de um choro ou de alguma outra expressão sentimental. 

A relação dos seres humanos com o futuro é bem intensa, apesar das impossibilidades de prevermos determinados acontecimentos. Ainda assim tentamos. Mas por quê pensamos tanto no futuro? 

É possível tentar responder a essa pergunta com base no autoconhecimento, e assim caberia a cada um de nós criar reflexões a partir das próprias crenças e personalidades, levando em consideração também os acontecimentos que vivenciamos e observamos. Da mesma forma, podemos encontrar respostas mais generalizadas e, ao mesmo tempo, eficazes vindas da ciência. 

Lawrence R. Samuel, por exemplo, estuda há anos o comportamento psicológico dos norte-americanos e tem explicações baseadas em contextos históricos, culturais e científicos para justificar esse nosso interesse no futuro. 

“O futuro sempre serviu como uma oportunidade para exalar nossos piores medos e expor nossas maiores esperanças, sendo a mais profunda delas a de que viveremos depois que nosso corpo morrer”, afirma em artigo publicado na Psychology Today

Não por acaso, muitas pessoas costumam atrelar suas previsões e imaginações futuristas aos conceitos religiosos, pois o futuro, por mais misterioso que seja, pode servir como alento até para os mais pessimistas e infelizes. Samuel defende essa ideia de uma forma bem didática.

“A noção de uma vida após a morte – o núcleo de muitas religiões – é o futurismo em sua forma mais pura. O amanhã não é concebido somente como um lugar melhorado pela próxima grande invenção ou como algo muito pior por conta de uma invasão alienígena, mas como um universo alternativo com suas próprias regras.”

E nesse universo alternativo futuro que só podemos imaginar, quem faz as regras?”

Seres humanos seguem regras constantemente, e muitas delas foram desenvolvidas por pessoas que sequer conhecemos. Ainda assim seguimos. Contudo, ainda almejamos ter o controle das situações e também criamos nossas próprias regras. Isso vale até para as nossas previsões do futuro. 

David Ropeik, professor de Harvard com vasta experiência em estudos comunicacionais, acredita que o hábito de tentarmos “adivinhar” o futuro vai permanecer na sociedade por muitos anos. “Prevejo que no futuro as pessoas ainda estejam tentando prever o que acontecerá no futuro. Pela mesma razão que fazemos agora … para nos dar a sensação de controle sobre o nosso destino”, escreveu o pesquisador em um de seus artigos

A partir da ciência comportamental, portanto, começamos a entender o porquê de pensarmos constantemente no futuro. Mas será que conseguimos realmente prever acontecimentos futuros?Ainda não existe uma resposta definitiva para isso, especialmente se levarmos em consideração os conceitos religiosos de cada pessoa. No entanto, Stephen Hawking conseguiu ser bem direto sobre isso no livro “Breves Respostas para Grandes Questões”:

“As leis que governam o universo nos permitem prever com exatidão o que acontecerá no futuro? A resposta breve é não… e sim. Em tese, as leis nos permitem prever o futuro. Mas os cálculos são muito difíceis na prática.”

O físico mais popular das últimas décadas diz isso por conta do estudo feito em 1927 por Werner Heisenberg, que refutou a tese determinista de Pierre-Simon Laplace, na qual o francês dizia que poderíamos calcular o comportamento de todas as partículas do universo no passado ou no futuro se conhecêssemos suas posições e velocidades.  

Heisenberg defendia o princípio da incerteza, de que era impossível sabermos essas informações de maneira precisa e simultânea. Contudo, o alemão também diz que seria possível prevermos uma combinação da posição e da velocidade (uma possibilidade que poderia desaparecer se levássemos em consideração os buracos negros). 

Ou seja, os especialistas em mecânica quântica afirmam que não somos capazes de prever o futuro, apesar de não ser algo completamente impossível. A imaginação sobre o futuro, no entanto, não precisa ser suprimida. E isso realmente não tem acontecido. Pelo menos não em grandes produtos culturais produzidos nas últimas décadas.

O Futuro na Arte

“A ambivalência em torno dos futuristas e do próprio campo reflete o fato de sua história ter sido polarizada, com o mundo de amanhã muitas vezes imaginado em linguagem e imagens utópicas ou distópicas.”

Essa afirmação de Lawrence R. Samuel, citado anteriormente, diz muito sobre as narrativas futuristas vistas na cultura pop a partir dos anos 1960, especialmente no cinema. O movimento cinematográfico da Nova Hollywood popularizou grandes franquias surgidas nos anos 1970 e 1980, mas também foi importante para mostrar ao público a importância de personagens subversivos e das “previsões” futuristas na sétima arte.

Se por um lado tínhamos as fantasias impossíveis, como Star Wars e Star Trek, pelo outro encontrávamos distopias muito críveis, como Blade Runner. O filme de Ridley Scott, baseado em uma obra literária dos anos 1960 (Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas?), não fez tanto sucesso na época do lançamento (1982), mas virou um clássico cult, exatamente por imaginar uma sociedade do século XXI na qual uma corporação cria clones humanos para trabalharem como escravos em colônias espaciais. 

A história se passa em 2019, e como você pode constatar, não temos muitas semelhanças com os contextos imaginados no filme. 

Ou será que temos? 

Visualmente podemos dizer que Blade Runner acertou muitas previsões relacionadas às grandes metrópoles mundiais do século XXI. Existe até um perfil no Instagram mostrando fotos reais que poderiam ser frames da produção oitentista. Dá uma olhada:

Com um estilo Neo-Noir, Blade Runner também fez previsões assertivas sobre elementos sociais e tecnológicos do futuro. Ainda não temos clones tão desenvolvidos quanto os replicantes e nem possuímos colônias em outros planetas. Entretanto, os projetos de expedição para Marte já estão em desenvolvimento e a inteligência artificial tem ganhado cada vez mais espaço. 

Outros filmes dos anos 1980 também brincaram com o futuro. O mais icônico, sem dúvidas, é De Volta para o Futuro. O segundo longa-metragem da trilogia, inclusive, imaginou carros voadores e outros elementos futuristas para o ano de 2015. Errou? Possivelmente sim, mas com relação à data, tendo em vista que algumas empresas começaram a distribuir carros voadores em 2019 (quatro anos após os eventos da história). 

E as ficções científicas foram ganhando ainda mais espaço, e até hoje mexem muito com a imaginação de roteiristas e espectadores para tentar prever o futuro. Um ótimo exemplo é Black Mirror. A série da Netflix virou referência e meme para análises distópicas de um futuro que parece estar cada dia mais presente. O seriado ainda serviu de inspiração para outras obras, como Love, Death & Robots, também da Netflix, e Upload, do Amazon Prime Video.

Além disso, os filmes com questões temporais têm ganhado vida através de histórias espaciais. É o caso de Interestelar e A Chegada, ambos influenciados por 2001: Uma Odisseia no Espaço, a obra-prima de Stanley Kubrick que mostra como o futuro é dependente do passado para ser construído. Basta lembrar do Match cut mais famoso da história do cinema. 

Por falar em A Chegada, o filme de Denis Villeneuve tem um dos diálogos mais impactantes sobre o tempo:

“Se você pudesse ver toda a sua vida do início ao fim… mudaria alguma coisa?”

“Eu talvez dissesse o que sinto com mais frequência”

A resposta de Ian para a pergunta de Louise reafirma a importância de não suprimir sentimentos e pensamentos imaginativos, mesmo que eles envolvam um futuro ainda obscuro, fantasioso e pouco provável. Até mesmo nas fantasias podemos encontrar elementos que seriam interessantes para o futuro. Afinal, quem não gostaria de ganhar um sabre de luz, como de Star Wars, ou de ter acesso a profecias e visões como as de Duna e Harry Potter

Imaginar não custa nada, mas suprimir a imaginação pode custar caro… 

Imaginação Suprimida

Na série “Primeira Infância”, disponível no Canal MOVA, Gandhy Piorski fala muito sobre a relação das crianças com a imaginação, encontrada em diversos momentos, especialmente durante brincadeiras. Entretanto, algumas constatações de Piorski nos fazem refletir também sobre relações interpessoais de poder da realidade adulta. 

A principal delas seria sobre a supressão da imaginação. 

“Os alemães, desde o século XVII, suprimiram tanto a alma criadora e seus mitos com o racionalismo, que quando elas emergiram vieram na forma destruidora de Hitler. Eles suprimiram tanto as forças inconscientes que elas emergiram destruindo tudo. E eles ainda reverenciavam aquela força destruidora por ser a essência deles. No fundo era a própria intimidade deles”, relata  o pesquisador. 

A fala de Gandhy mostra o quanto uma sociedade reprimida, sem valorização da criatividade e do imaginário, tem mais chances de aclamar o autoritarismo e sofrer com as consequências dos mitos que apoiam essa conduta opressora. A teoria se fortalece ainda mais a partir da ciência comportamental. Recentemente, Thiago Luz, especialista no assunto, fez um artigo sobre a psicologia do fascismo, e um trecho chama atenção: 

“Como nosso comportamento não evoluiu com base no melhor para todas as circunstâncias, e sim para funcionar bem o suficiente para não sermos extintos, temos uma tendência a observar padrões até mesmo onde não existe. O Fascismo se aproveita dessa “imperfeição” em nosso processo cognitivo, utilizando como base o discurso do medo, para atrair fiéis seguidores, preenchidos com receio e conspiração de uma ameaça que não reflete a realidade.”

Não por coincidência, as teorias da conspiração e a criação de inimigos existentes principalmente no imaginário das pessoas estão muito presentes no cotidiano dos civis e das autoridades. Esse é mais um exemplo de que a imaginação suprimida citada por Gandhy realmente vai emergir em algum momento, e ao entrar em contato com nossa capacidade de traçar padrões, ela pode surgir de uma forma bastante problemática.

Gandhy também afirma que “quando essas forças internas não podem se manifestar, elas criam adoecimento pessoal, político e social”. E isso não é difícil de prever.

Voltemos ao cinema.

Mais precisamente ao cinema em 2019.

Quatro dos filmes mais comentados do último ano tem um elemento em comum: a revolta dos oprimidos. 

Diversos países do mundo tem enfrentado um radicalismo de ideologias intenso há alguns anos, paralelamente a discursos de ódio e falas preconceituosas vindas da população e dos seus líderes. A repulsa ao conhecimento, à arte e ao diferente tem sido recorrente. Mas o que isso pode causar? Revoltas. Revoltas bem compreensíveis, levando em consideração os assassinatos de minorias e o aumento constante da desigualdade social. 

Parasita, Bacurau, Coringa e Nós abordam essas revoluções a partir de histórias e personagens bem diferentes. Apesar das motivações distintas, todos se sentem injustiçados e utilizam até meios violentos para acabar com as suas insatisfações e, principalmente, para se defenderem de um sistema que os prejudica diariamente. 

Ultimamente esse padrão tem aumentado na realidade, então podemos dizer que os cineastas responsáveis por esses filmes adivinharam o futuro? Um pouco, pois permitiram que a imaginação dialogasse com a realidade. Ao mesmo tempo, podem ter contribuído para estimular reflexões do público que estavam adormecidas e podem ser fundamentais para a alteração da realidade futura. 

Dedique Tempo ao Futuro

No mesmo artigo citado no início deste artigo, Lawrence R. Samuel afirmou que “o futurismo sempre trouxe consigo uma sensação de mistério e a capacidade de conhecer o desconhecido considerado limitado àqueles com poderes especiais (e, às vezes, maus).” 

O bem e o mau coexistem, tanto na sociedade quanto em nossa imaginação. Reprimi-los pode fazer com que eles surjam de uma maneira indesejável e, pior, incontrolável. Basta ver o curta-metragem brasileiro “Loop”, no qual o protagonista tenta controlar o tempo apenas com a racionalidade e acaba enfrentando um problema grave e irreversível.

Como a ciência mesmo diz, temos as nossas limitações para afirmar precisamente o que vai acontecer no futuro. Todavia, a imaginação não tem limites. Idealizar ou sonhar com um cenário futuro pode influenciar o presente e o próprio futuro. Até mesmo a criação de futuros ficcionais pode impactar na sua vida e na dos outros, positivamente ou negativamente.

Imagine. Crie. Conte. Mostre. Brinque. Grite. Lute. 

Não suprima seu imaginário, por mais absurdo e surreal que as premissas possam parecer. Se fizer isso, todos os seus momentos podem se perder no tempo, como lágrimas na chuva…

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